Land Lousã


A MORDAÇA DA DOR, DA MINHA DOR. by Parola Gonçalves
04/11/2008, 13:16
Filed under: MEMÓRIAS

“Quando o avião levantou voo e fez a curva para a direita tive a noção exacta que seria a última vez que veria  a minha Terra, Terra em que tinha nascido e por opcção Terra que queria ajudar a crescer.”

Numa noite de um dia qualquer de um ano qualquer mas distante, que não quero recordar e que paira sobre mim como um pesadelo angustiante, quando aquele Boeing 747 da TAP, me empurrou contra o banco e empinou o nariz e curvou para a direita, sabia que nunca mais voltaria a minha Luanda. Tinha ficado tudo para trás, os amigos, a escola, o emprego e sobretudo a infância, feliz muito feliz. O meu Bairro o Marçal não era mais que um Musseque a entrada da chamada cidade. Era fixe cheio de vida e de ritmo, merengues em cada esquina, pára-cuca -doce de jinguba com acúcar -e maçã da índia, gajajas com sabor amargo como a múcua,  castanha de cajú queimada na hora nos balaios da Jezuína ou da Mabunda. Ainda hoje consigo descrever na minha memória os cantos e os becos daquele Bairro, esquina por esquina, beco por beco. Muitas vezes dou por mima navegar por aqueles becos apertados, mas adiante que se faz tarde.

Mas o choque foi maior quando de manhã chegado a Capital do Império o frio intenso me fez gelar o corpo e a alma. Vinha de manga curta e o “baque” foi violento, tremia por todo o lado com medo do desconhecido.

Tinha a Rosa Maria e o meu cunhado a espera e partimos para o norte, passando pela Figueira da Foz aonde estavam os meus pais, que não sabiam da minha vinda.

O meu pai preocupado deu-me 2500$00, porque eu nem sabia a cor do dinheiro de cá. Lá fomos para o norte, para casa da minha irmã Maria do Carmo, que nos deu guarida, cama e comida.

Agora era preciso arranjar emprego, mas o País estava em convulsão, eram as nacionalizações, era o PREC, era o COPCON era o SAL era a revolução, enfim o necessário.

Então de manhã bem cedo estava a porta da Biblioteca do Porto, para ver os jornais e ler os anúncios e de lá partia a pé em busca de trabalho, mas a resposta era sempre a mesma “Ainda é muito novo, preciso com mais experiência” ou “Já está ocupado”. Mas, o que era necessário era não desistir, era preciso lutar, ir a lutar porque as coisas estavam cada vez mais difíceis, sem dinheiro, casado e a viver e a comer em casa da miha irmã.

A Rosa Maria tinha conhecido uma Condesa que lhe encomendavas muitos vestidos e arranjos e isso ia dando para as nossas despesas, mas às vezes era muito complicado, porque não havia $$$ nenhum, zero, nada, nem um simles centavo. Sabem o que é um tipo ver um bolo ou querer tomar um café e népia, “comer com os olhos”. Sabem o que é ter sapatos mas sentir o frio da calçada e o molhado do chão, se não sabem também nunca queiram saber, porque é mau, muito mau, transforma um tipo num farrapo se for abaixo das canetas. Nunca nos devemos resignar, nunca, nunca, nunca, NUNCA.

Até que um dia soube que o Ministério da Administração Interna, MAI, estava a recrutar pessoal para os GAT’s, Gabinetes de Apoio Técnico e resolvi ir a Lisboa ao Ministério, seja semprei pensei que devemos ir se lutamos por uma coisa. E assim fiz, fui com a Rosa no comboio regional até a Figueira da Foz, falei com o meu pai e pedi-lhe emprestados 500$00 – todos esses valores estão  anotados e guardados numa pasta – e parti para Lisboa de carro porque o meu pai disse que assim era melhor. Atestou o Austin 1300, com a matrícula VZ-52-12 e parti a noite. Chegamos a Lisboa perto da meia noite e dormimos dentro do carro, num Parque de estacionamento por detrás do Rossio, penso que ainda existe.

De manhã cedo, lá fui para o MAI, apresentaram-me ao Engenheiro Manuel Dias, entreguei a minha candidatura e o o currículo e voltamos para a Figueira da Foz e depois de regional para o Porto.

A espera foi dolorosa até que um dia recebo uma carta para ir a uma entrevista a Estremoz. Nem hesitei, falei com o meu cunhado e pedi-lhe 300$00 emprestado, o dinheiro suficiente para ir, só para ir, porque não podia regressar, não queria regressar, tinha de lutar pelo lugar.

Fui de comboio, sempre de Regional, saí  à meia noite e cheguei a Estremoz com 3 transbordos cerca das 15.00 horas.

Fui ao GAT e sorte do caraças, o Director do GAT que estava de saída para Lisboa é a pessoa a quem eu pergunto pelas instalações ele respondeu com uma pergunta, “Queria alguma coisa delá, é que eu sou o Director”, e eu respondi vinha para a entrevista. Mas o homem estava cheio de pressa, mas lá me atendeu depois de muita insistência.

Depois de muita pergunta/resposta o  Eng.º Valdez responde, “preciso de muita gente, topógrafos, medidores, desenhadores mas engenheiros só com muita experiência, porque novatos já tenho uma”, e lá estava uma engenheira a um canto da sala.

Eu disse-lhe dê-me uma oprtunidade, uma semana, só uma semana, mais, trabalho com engenheiro e recebo com desenhador, mas dê-me essa oportunidade. O homem viu-me tão aflito que disse combinado, uma semana, mas uma semana.

Chamou o Modesto um desenhador e disse-lhe entrega aqui a este Senhor os desenhos do Lavadouro de Rio de Moinhos para ele calcular.

Mas o pior estava para vir, sem guito e sem poiso a coisa estava a ficar preta, o frio era mais que muito, era cortante aquele frio de Estremoz, e o Modesto perguntou-me, “Tens onde ficar” e a resposta foi óbvia, “Não”. Não te preocupes ficas no “Xico do Cano”, onde eu estou e temos direito a pensão completa por 3500$00. E assim foi o Senhor Francisco recebeu-me de braços abertos e instalou-me o melhor que pôde, ficar-lhe-ei grato para toda a vida, nunca me esquecerei disso, jamais.

No dia seguinte comecei na labuta e fui esgalhando trabalho atrás de trabalho, fazia tudo, cálculos, desenho, medições e orçamentos. Uma semana depois estava admitido não como desenhador mas como Engenheiro de 1.ª.

Mas havia outro desafio mais aliciante, era o GAT “entrar” na Câmara de Vila Viçosa, o Presidente na altura não via com bons olhos o GAT e solicitou a elaboração do Projecto da Rede de Abastecimento de Água a Vila Viçosa.

Era um projecto difícil, com muitas implicações de aprovação e o Eng.º Valdez faz-me o desafio “Parola temos de fazer isto, rápido e bem para ser aprovado, pelo Núcleo de Saneamento Básico de Évora”.  Ele sabia o que dizia e as implicações que isso trazia, era obra entrar no sistema dominante, mas nada como tentar.

O desafio era enorme, mas era preciso avançar, rápido mas bem, e era  aminha área preferida, sempre adorei hidráulica, fascinava-me o desafio.

Parto para o terreno com o topografo o Senhor Pinto e com o trabalho de campo e de Gabinete em pouco mais de um mês, o projecto estava em Évora para aprovação no NSBE.

A informação do NSBE era um “tratado”ainda hoje guardo aquele documento com especial carinho e orgulho, aprovava o projecto e reconhecia “Excelência” na sua qualidade. O Eng. Valdez reconhecido por este trabalho promove-me a Eng.º Especialista Principal.

Mas nem tudo são rosas, o sentir da calçada fria nos pés e o frio intenso deixaram marcas, marcas profundas, que ainda continuam por cá, mas a luta mais uma vez a luta e a força de vontade levaram a que tudo fosse ultrapassado. Foi uma das fases mais difíceis da minha vida que só com a ajuda da Rosa Maria e dos amigos em Estremoz foi possível ultrapassar, mas mais uma vez tinha conseguido.

Entretanto na altura tinha concorrido para quado da ONU e enviei a minha candidatura para Genebra e tempois depois recebi umja carta para  mim apresentar em Genebra para ir para o Burkina Faso, não fui porque estava doente, muito doente o frio tinha deixado as suas marcas. Hoje questiono-me o que teria sido a minha vida se tivesse optado por ser quadro da ONU, mas não gosto de pensar nisso.

Estabilizado e reconhecido o meu trabalho pelo Eng.º Manuel Dias Coordenador Geral dos GAT’s, fui depois para Manteigas, Seia e Lousã sempre com o trabalho de “sapa” de entrar nas Câmaras Municipais o que era difícil, muito difícil.

Hoje reconheço que passei as “passas do diabo”, que o frio e às vezes a fome me fizeram ver as coisas de modo diferente, mas também sei que só com a ajuda da família foi possível ultrapassar situações de quase desepero, nomeadamente quando cá cheguei em que muitas vezes “comia com os olhos” o que via nas montras dos restaurantes, mas isso fez de mim uma pessoa mais solidária e sensível.

Os meus amigos foram e serão sempre muito importantes  na minha vida e um tipo sem amigos não é nada é um “sózinho”. “Sózinho” nem sequer é uma palavra bonita, atraente é um “só pequenino”.

Eu costumo dizer aos “putos” meus amigos que a amizade é um pilar da vida e que neste mundo dos “isolados” de quatro paredes em altura é importante nós termos mais alguém para além da família.

Eu já passei por muito, por fome, por muito frio, por emboscadas com o limiar da morte, por aventura no limiar da sede, por doença no limiar da cegueira, mas luto,  luto sempre porque acredito na família e nos amigos. Todos os dias quando acordo o meu primeiro acto é ver se vejo a luz do sol a entrar na persiana, é ver se vejo o reflexo da luz do relógio do rádio é ver se vejo sem reflexos ou relâmpagos é sobretudo ver, até quando não sei, mas ver e viver é o mais importante.

Fiquem bem.

Inté.

A Rosa Maria, ao Nuno, ao Rui e a minha mãe Maria do Céu, que são os meus pilares, amo-vos bués.

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16 comentários

Fonix MAN!!!
Nem sei o que dizer. 😐
Espectáculo…MESMO!!!

Abraços

Comentar por André Athayde Cordeiro

Não existem comentários para descrever o que aqui esta escrito.

“Eu costumo dizer aos “putos” meus amigos que a amizade é um pilar da vida….”

Eu considero-me com muita alegria incluído nesse leque de “putos” amigos, pois ouço esta frase muitas, muitas vezes….

Abraço Mestre

Comentar por Tope

Eu quando era puto, um vez escrevi uma cena que era mais ou menos assim:
“À medida que avanças, o horizonte muda. Aparecem-te mil horizontes diferentes. Conquista-os a todos!”
Cenas de putos, que acham que sabem muita coisa.
Hoje, de vez em quando lembro-me disto.
Agora lembrei-me.
Haja querer, haja coragem, haja a certeza que os putos têm de que vão conseguir ultrapassar tudo!
Hajam Amigos como tu, que nos dão estas achegas!
Haja Saúde.
Grande abraço Mestre!

Comentar por stormd90

Boas.
Eu acredito cegamente nos putos de hoje e costumo dizer que são mais frontais e directos. Canso-me de dizer isso, porque vejo isso cá em casa e tenho dois.
Fiquem bem. Inté.

Comentar por Parola Gonçalves

Já estou habituado a ler as Tuas memórias e deixam-me sempre com um sorriso de orelha a orelha. Mas este MAN, fiquei mesmo sem expressão.
BRUTAL!
Abraços e continua assim com És.

Comentar por André Athayde Cordeiro

Boas Mestre,
a vida é cheia de surpresas, umas boas, outras menos mas com as quais temos que viver e saber aprender. Costuma-se dizer que quando perdemos algo lhe damos o seu valor mas também sabemos atribuir o valor quando esse algo está presente. O passado faz sempre parte do presente, é uma herança que carregamos connosco mas que devemos aproveitar da melhor forma. Sei que tu, Mestre, a recordas e aplicas no teu presente de uma forma positiva e humana.
O meu bem haja por me sentir parte do teu grupo de amigos e seres a pessoa excepcional que és e sempre serás…um homem de bem e partilha.
Inté.

Comentar por Ana França

Mestre… estavas certo ao telefone, e como te prometi só vim hoje,esperei ansiosamente até à meia-noite para ler o k cá tinhas.Pois,fartei-me de chorar.Sabes Mestre,quando olho para ti e para a Rosinha vejo muito mais do que um casal de amigos…nunca me vou esquecer de tudo o que fizeram por mim,sobretudo ao longo deste ano tão dificil…e tu sabes como foi.O meu reconhecimento alcança uma tal dimensão que ontem,mesmo antes falar com os meus pais,vos dei em primeira mão a novidade…e nunca esquecerei que foste a primeira pessoa a perguntar-me se já havia novidades.Encontrei na vida algumas pessoas que nunca esquecerei,tu e a Rosa são duas delas…sinto um privilégio inexplicavel por poder partilhar fazer parte da vossa vida.
Sei que já te disse isto, mas não me canso de o repetir: Obrigada por existires Mestre,sem ti este mundo seria infinitamente pobre! E obrigada ainda, por teres sido…e continuares a ser um “segundo pai” para mim.
Beijos

Ana Valadas

Comentar por Ana Valadas

Esta posta abre espaço a muitos “E ses…”. Convém lembrar que o “se” funciona tanto para o melhor, como para o pior. Penso que, para quem já teve tudo, tudo perdeu e agora luta para tudo manter, te estás a safar exemplarmente. És o meu exemplo de vida, o meu ídolo. “O que faria o meu pai?”, penso em situações de aperto.

Penso que este tipo de posts poderá lembrar a todos que, mais importante que as tricas e estéreis intrigas do dia-a-dia, mais importante do que ganhar umas massas (para depois serem gastas em futilidades… mas é a sociedade que temos, é o que a sociedade nos ensina, e é o exemplo que vamos dando…), mais importante do que agir em função do próprio umbigo é mesmo lembrar que há quem viva a pensar se vive mais um ano, um mês, um dia… Há quem não tenha algo por que valha a pena (sobre)viver.

Temos de ser amigos uns dos outros, temos de saber ser solidários mesmo com quem não conhecemos, criando uma espiral de energias positivas que só resultam numa melhoria da vida de todos. Não devemos tratar os amigos como estranhos, nem estranhos como amigos – para tudo há o seu peso e devida medida.

Não me apetecia estar a pregar… considerem estas palavras como um mero reflexo do que li. Não tenho culpa de pontapear quando me martelam o joelho!

Enfim, obrigado, pai, pela vida que me proporcionaste e por me ensinares que nada do que se tem, hoje, é obra da lotaria do acaso – o mesmo se aplicando para o que se quer ter, no futuro.

Muito mais poderia ser dito.

Um “muito obrigado” a todos que ajudam à felicidade dos meus – são dos meus, também.

Comentar por Rui Alexandre Marques Gonçalves

Estou maravilhado…

Quero agradecer-te por ser um dos teus amigos “putos”.
Contigo tenho aprendido e crescido muito.
É sempre bom ouvir os teus conselhos.
Já tivémos os nossos “stresses”… já tivemos os nossos grandes momentos…
Essa é a verdadeira amizade, nem sempre tudo é um mar de rosas, mas o sentimento de “querer bem” é sempre mais forte e só com essas adversidades é que os “pilares” da vida se consolidam.

Grande abraço

Comentar por André Bela

Decorria o ano de 1975, dois jovens na altura, cheios de projectos resolvem unir as suas vidas.
A vida e o futuro sorria-nos, tudo a postes para a construção dos nossos ideais e projectos, mas eis senão quando dá-se a grande mudança, “Independência de Angola” país onde crescemos e vivíamos, mudança esta que viria a alterar o percurso das nossas vidas.
Hoje, volvidos alguns anos e olhando para traz concluo que tudo aquilo que foi vivido com maior ou menor dificuldade, serviu para crescermos, lutarmos pelos nossos objectivos e atingirmos o que é hoje a nossa vida e quanto a mim soubemos fazê-lo. Somos e temos uma família feliz, conseguimos transmitir aos nossos filhos que nem tudo são rosas e que se queremos ir mais longe precisamos de percorrer alguns caminhos.
Tudo o que descreveste no teu relato é um exemplo disso.
Sempre admirei a tua frontalidade e simplicidade, como sabes costumo dizer na brincadeira “Casei contigo por seres um homem inteligente” e não só…
Continua assim, porque é desta forma que gostamos de ti.
Bj
Romy

Comentar por Rosa Maria

Vidas assim já não se fazem!
É daquelas pessoas que teve a felicidade de passar por experiências que nos moldam bem !
Mas falta ainda descobrir qual é o seu sentido da vida?

Comentar por Paulo Bre

Ó Man:
Por mais palavras que possa escrever, nenhuma consegue exprimir o meu sentimento…
Obrigado Parola, por partilhares estes teus Tesouros.
Um ABRAÇO cá do je

Comentar por luis filipe

Sem duvida alguma foi, é e será para sempre um Grande Homem.

Bem haja

Filipe Garcia
FLGFLG

Comentar por Filipe Garcia

Boas.
Obrigado a TODOS.
O que pretendi foi unicamente explodir e chorar e muito, chorei que me fartei até com convulções. Agora estou mais sereno, já passou. Das datas não me quero lembrar, agora quero ser feliz, só isso, ser feliz e quando acordar de manhã ver a luz e isso continua a ser o meu dilema “saber se”.
Fiquem bem e curtam bués.

Comentar por Parola Gonçalves

Um abraço , Muito grande TU mereces TUDO .

Carlos Costa

Oeiras

Comentar por Carlos Costa

” A vida é mole para quem é duro”,e “dura para quem é mole”, estas frases nunca se adequaram tão bem.

Obrigado ao Parola e à Rosinha por darem tanto de si aos amigos, por partilhar experiêcias e exemplos de vida que são sempre uma fonte de animo, vale sempre a pena!!!

Abraço

Comentar por Campesita




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