Land Lousã


QUANDO O INSTANTE É UMA ETERNIDADE by Parola Gonçalves
18/01/2010, 21:58
Filed under: MEMÓRIAS
Preciso de escrever isto, mas não sei começar. Ainda hoje quando ia para Aveiro com o meu fiel SAvimbi, lhe colocava  a questão porque ele vai ouvindo os meus desabafos e as minhas emoções.
O mês de Janeiro tem sido desde há uns anos uma duna difícil de ultrapassar.
Sei quando foi, mas não quero recordar nem o ano, nem o dia. Sei que foi em Janeiro, porque a minha “afilhada” fazia anos e notei que num dia limpo de Inverno, ao atravessar a Ponte sobre o Tejo, notava que os flash’s e os relâmpagos invadiam a minha cabeça.
Achei aquilo tudo muito estranho e fiquei preocupado, mas mais preocupado quando aos flash’s se juntou a “mosca”, aí é que me aprecebi da gravidade do caso.
Bem cedo, numa segunda-feira, fui à Clínica ter como o meu Médico o Prof. Joaquim Murta, que confirmou o pior, aquilo que eu mais temia, um brutal descolamento de retina, mais que um descolamento era uma cratera. Fui nesse instante confrontado com o pior cenário possível, um cenário negro e doloroso, para quem gosta de viver a vida ao ar livre.
Mas, nada mais havia a fazer do que confiar na Equipa Médica e avançar de imediato para a Sala de Operações.
O Prof. António Travassos, foi claro, preciso e de poucas palavras. Se tudo corresse bem, só ao fim de 62 dias se saberia, até lá repouso absoluto, não mexer e cumprir na íntegra todas as indicações. Era a escuridão total.
Não sei quanto tempo demorou a operação, sei que foi 3 ou 4 vezes mais que o normal, sei que foi utilizada uma nova ténica, com a introdução de gás, que funcionaria como uma “cofragem” empurrando a parede da retina para o seu lugar.
Tudo correu bem, mas existia um grande período de espera. Nunca entendi bem essa dos 62 dias, mas sei que contei, os dias, as horas, os minutos, os segundos e todos os instantes desses 62 dias.
Sei que tinha de estar deitado sobre o lado direito com o queixo a bater no peito e não podia mexer, tossir, espirrar ou fazer qualquer esforço ou ameaço de esforço.
Nesses dias, que foram uma eternidade, os meus dedos não se cansavam de contar, aprendi que o “instante” afinal é uma “eternidade”.
Hoje, dia 18 sei que estou a subir a duna e quando chegar à sua crista no dia 21, sei que nem as “moscas” nem os flah’s me vão incomodar, porque já não existem, a não ser na minha cabeça.
Fiquem bem. Que nunca o “instante” seja uma “eternidade”.
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11 comentários

Comentário, comentário, não!
Só um abraço solidário.

Passei por uma situação delicada com um braço e passei mal; com a visão deve ser …!!!

Comentar por Eduardo

Boas! Espero que essa visão e memória continuem despertas por muitos mais tempo para que o Mestre nos possa relatar os momentos passados e todos aqueles que ainda há-de “degustar”.
Acredito que foi um momento vivido com muito “medo” e ansiedade perante esse futuro incerto, acredito que a força de vencer, a coragem interior e o dinamismo que caracteriza o Mestre o ajudou a vencer uma fase menos boa na vida, acredito que uma “luta” por uma vida que tem direito a ser vivida em pleno deve ser sempre lembrada.
Inté!

Comentar por Ana França

São eternidades dessas que nos fazem querer viver todos os instantes que conseguimos alcançar.

Boa sorte ai com a visão, pois as memorias por vezes não chegam.

Cumprimentos.

Luis Rosado

Comentar por Luis Rosado

MAN;
… com uma pequena (muito pequena), lágrima no canto do olho, eu digo:
… foi mais uma grande Vitória do Bem sobre o mal…
Um grande ABRAÇO
Filipe

Comentar por luis f vieira

Amigo Parola.

Um abraço muito FORTE.
Carlos Costa
oeiras

Comentar por Carlos Costa

“Emoções à flor da pele”
Por vezes mantemo-nos em silêncio, recalcamos aquilo de que muito gostaríamos de falar, mas… o que importa, é que a crista da onda já vai longe, e tão distante que temos de dar lugar ao presente e tudo o que ele tem para nos dar, saboreando o melhor possível cada “Instante”
As tuas são as nossas preocupações.
Beijusssssssss…

Comentar por Rosa Maria

Desconhecia essa história…
Se quem está de fora já sente um pavor enorme dessas coisas quase se pode imaginar o de quem passa por elas…
Como alguém disse acima o Bem triunfou e isso é preciso ser mais recordado que tudo o resto.
Abraço!

Comentar por Artur Ferrão

Foi difícil para todos – para ti, muito mais.

Sei que foi graças aos sintomas do que te aconteceu que se evitaram males maiores, também aqui, deste lado.

Não podemos viver no medo.

Carpe Diem.

Comentar por Rui Gonçalves

MAN,
Lembro-me que estava tudo combinado para irmos dar uma volta acho que era para Espanha se não me engano.
Certo dia liga-me o Luís Filipe a contar-me o sucedido. Disse-me que tinhas pedido para não te ligarem,e que quando pudesses falar ao telemóvel que ligavas a dar novidades.
Fui tentando saber pelo pessoal do costume como andavas mas as respostas eram sempre as mesmas “está a melhorar”.
Ao fim de algum tempo (sei que não foram 62 dias), quando falei contigo pela primeira vez depois de sucedido estavas todo bem disposto. A nova técnica estava a dar bons resultados mas ainda faltava uns dias para ficares a 100%.
Ainda nos dias de hoje falas disso como se fosse ontem e desculpas-te pelos cabelos brancos e aumento de peso pelos dias em que tinhas de estar em repouso. Não vale a pena desculpares-te, isso é o P.D.I.
Passados alguns anos em conversa com a Rosa eu disse o que muita gente por vezes diz: “estou a ficar velho” e a Rosa imediatamente exclamou “OH ANDRÉ, Tu a ficares velho!!!! E comparando a minha idade com a vossa disse: “Então olha Eu e o Parola, somos mais velhos que tu!!!!” ao que eu respondi o que te vou dizer agora:
MAN, QUEM ME DERA SER TÃO VELHO COMO VOCÊS!!!
Uma coisa te garanto, desse teu telefonema nunca me vou esquecer.
Grande abraço MAN.

Comentar por André

coincidência ou não, escreveste isto no momento em que fui para o hospital com o meu pai que teve um enfarte agudo miocárdio… cada instante pareceu-me uma eternidade. Felizmente agora está melhor.

Abraço e muitos anos de boa visão 😉

Comentar por Hugo Pacheco

O que não nos mata tende a tornar-nos mais fortes, mas cientes da fragilidade da nossa condição humana. Daí a urgência de vivermos intensamente, desfrutando ao máximo cada obstáculo ultrapassado, cada projecto realizado, cada amizade conquistada…
Um grande abraço

Comentar por Miguel Freitas




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