Land Lousã


A SUBIDA DO ALTO HAMA by Parola Gonçalves
01/11/2011, 16:22
Filed under: MEMÓRIAS

 

Norton de Matos hoje Quilengues no regresso de Moçâmedes

Ui… foi há tantos anos – mais de quarenta -, mas hoje lembrei-me dessa grande viagem, numa visita a alguém que já não posso abraçar, a minha mãe.

O meu espírito de aventura sempre se manifestou desde muito cedo. Porquê? Não sei; mas também não interessa. O que sei é que um dia me lembrei de ir de Luanda a Moçamedes de Maxi Puch, uma ciclo-motoreta com pedais e sem suspensão no eixo traseiro. Mas o que interessava mesmo era ir à descoberta e à aventura: cerca de 3000 kms de ida e volta. A velocidade máxima não podia ser superior a 40 kms por hora – e nas subidas era preciso dar ao pedal ou, quanto muito, embalar.

Saí de Luanda bem cedo, com uma mochila de apoio, três litros de gasolina em pequenas vasilhas da Texaco e com 1000$00 que a minha mãe me deu para os 30 dias de viagem com umas paragens pelo meio.

Mas esta viagem tinha duas ou três grandes âncoras, o Alto Hama, a Serra da Leba e o deserto do Namibe. Por hoje, fico-me pelo Alto Hama. O Alto Hama ficava a cerca de 540 kms de Luanda e tinha (que me lembre) duas particularidades: a nascente termal e a sua subida, longa e acentuada.

A primeira etapa acabava na Quibala, que era um entreposto comercial importante, onde todos os camionistas paravam para reabastecer e dormir. Como disse, saí de Luanda bem cedo e ainda de noite e cheguei a Quibala, já passava da meia-noite. Pelo que me lembro, comi qualquer coisa e dormi junto à Maxi Puch num dos alpendres de uma Casa de Pasto. Bem cedo, muito cedo, arranquei para o Alto Hama para aquilo que eu chamava a etapa maratona, a mais difícil, já que o motor da Maxi Puch não estava capaz de suportar a longa subida: uma subida tão longa exigente, que se dizia que os motoristas das Mercedes, Scanias e Volvos, podiam descer e literalmente “arrear a calça” e, numa corrida, tornar a conduzir a camioneta.

Depois de percorrer o Planalto da Quibala a Cela, a coisa ia começar a complicar-se, já que ao longe se via a “Catedral do Alto Hama” – e a subida lá estava. Já não sei quantos quilómetros mediam a longa subida; sei que era preciso vencer mais esta etapa e nada melhor que parar e pensar numa estratégia.

Assim vi que todos os camiões, a determinada altura, mantinham uma velocidade constante em caixa baixa (em 2ª ou 3ª velocidade) num ronco forte, levando a reboque sempre um atrelado completamente carregado. A descida era feita na mesma; até era feita em menor velocidade, com as descargas constantes dos compressores de ar dos travões.

Estava quase de noite e nada melhor do que passar do pensamento a prática. Arranquei em força, levando o motor da Maxi Puch ao limite, cerca de 50 km/hora até me aproximar de um camião que seguia em esforço num ronco infernal até ao cimo ao Alto Hama.  A técnica, perigosa, era “apanhar uma boleia” num dos ganchos do atrelado de um dos camiões e seguir “atrelado” até ao fim da subida, num enorme esforço de braços. Desta vez o motorista não “arreou a calça” e levou-me em segurança até ao tanque de águas quentes e sulforosas para recuperar e descer até a cidade de Nova Lisboa no dia seguinte.

Foi há muito tempo, pessoal…

Quando o avião levantou e fez a curva para a direita tive a noção exacta que seria a última vez que veria  a minha Terra, Terra em que tinha nascido e Terra que queria ajudar a crescer.”

Inté.

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7 comentários

Gosto, Gosto, Gosto, Adorei!!

Comentar por Francisco Fernandes

Belo relato, continue amigo.
Um abraço
RR

Comentar por Rrui Miguel Rodrigues

Lindo MAN!
Continua S.F.F.

Comentar por André

Caro Amigo,

Continua a narração dessas memórias.
Faz bem à alma e a retroceder a um tempo em que não há outra forma de lá voltar.

Abraço

Comentar por 100azimutes

Não percas o embalo!

Abraço!

Comentar por stormd90

Lindo!
Agora é continuar e… estamos todos a espera do LIVRO, vá lá…
Abraço

Comentar por Nuno Santos

Man, espectaculo!!!
Vamos la a mais um capitulo… 😉

Abraço

Comentar por agostinho




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